domingo, 8 de setembro de 2013

Alvorecer



Era quase 6 da manhã quando eu desliguei a televisão e larguei a blusa no sofá. Tinha perdido noção do tempo enquanto assistia comédias românticas e sentia o velho agrado da nostalgia e daquele sentimento bem guardado que não sabemos dar um nome. Quando desliguei o aparelho, eu vi raios de luz ao redor da porta e da janela. Estava amanhecendo, eu me toquei. Fiquei um pouco sentado, olhando para o escuro, antes que eu me levantasse e seguisse o instinto tão obscuro de sair para ver a luz do dia. 

Quando cheguei a varanda, me deparei com um misto de cores no céu. Tons de arco-íris voando e colorindo o fundo e as nuvens com uma alegria nova. Luzes de postes iluminavam o pouco de escuridão que existia pela cidade enquanto o sol nascia. Elas, me observando na varanda, começaram a apagar, como se dissessem alguma coisa ou como se fossem altruístas demais para ficarem acesas enquanto uma luz mais forte do que elas era acesa. Elas dançavam num ritmo frenético que meus olhos, por vezes, não conseguiam acompanhar. Elas dançavam e acenavam e andavam de volta para casa, para longe das ruas, para longe das retinas, deixando o frio incendiar as entranhas de todos que estavam acordados. Mas era domingo, ninguém estava acordado e, quem estava, usava casaco. Eu não. Eu não pertencia àquela realidade; eu estava de pijama: uma camiseta velha e uma calça de moletom. Sentia o frio tanto fora quanto dentro de mim e não me importava. Não depois de ver comédias românticas fajutas de 3ª na tevê. Não depois de ficar observando uma blusa que ela já havia usado e que me trazia tantas memórias, algumas ativadas pelo cheiro, outras apenas pelo tato. Não depois de estar naquele lugar vendo o que eu via, como uma esperança, como uma lembrança de felicidade em algum horizonte distante.

Eu olhava e ficava cada vez mais admirado e estagnado em meus próprios pensamentos melancólicos. É como se eu não precisasse mais da noite para chorar; poderia fazer isso ali mesmo, na varanda com o sol e o restante do céu como meus cúmplices de um crime sem perdão. Mas já haviam muitas marcas que faziam parte do plano, do crime, então para que precisaria me preocupar com essa pintura de tela em plena manhã de descanso enquanto eu deveria estar dormindo em minha cama sem me preocupar com coisas além do usual? 

Todos nós sabemos que é mentira bem contada dizer que vai deitar na cama e dormir bem, porque você olha pro teto do quarto e pensa em sua vida e o que fazer com ela, do mesmo jeito que eu fazia ali fora, tentando sentir alguma coisa diferente, tentando escapar-me da confusão eloquente daqueles dias estranhos enquanto olhava para um lugar que eu não pertencia. Minha vida era a noite. Os bares cheios, as músicas altas, as pessoas desconhecidas. Marcas de um passado que quer ser apagado definitivamente. Via naquela paisagem algumas respostas para essa inconveniência, mas nunca quis saber a pergunta pois acabei virando as costas e ir dormir um pouco. Afinal, eu era um intruso naquele cenário diário. Uma imprecisão no meio do dia claro. Voltei pro escuro, para a fictícia noite, e me dirigi ao meu quarto. Deitei na cama e tentei dormir, mas não consegui.

Meu coração finalmente estava com esperanças.

2 comentários:

  1. Suas palavras tem algo meio... poderoso.

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  2. O último parágrafo foi o mais bonito do texto, a gente se identifica.

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